15 de abril de 2007 no blog sapo
Durante cerca de 12.000 anos os grupos étnicos evoluiram culturalmente e as pinturas rupestres constituem um testemunho desta transformação, o que observo, lendo e vendo fotos. Estas mudanças não são resultado do acaso, mas de uma transformação social gradativa que se manifesta em diferentes aspectos da vida dos grupos humanos, entre os quais está a prática gráfica, que até hoje utilizamos.
A tradição Nordeste de pintura rupestre, é caracterizada pela presença de grafismos reconhecíveis (figuras humanas, animais, plantas e objetos) e de grafismos puros, os quais não podem ser identificados. As figuras são dispostas de modo a apresentar ações, cujos temas é, às vezes reconhecível. Por exemplo, utilizando determinados ícones dessa tradição, utilizo em minhas pinturas cenas de caça, de viagens, de casamentos, de relacionamentos, de danças e estes movimentos são realmente reconhecíveis, apesar da primitividade do desenho e da pintura. Também não coloco muitos grafismos puros, talvez porque as peças que são pintadas se dirigem a um público, que necessita apreender o sentido do trabalho.
Também, mesmo seguindo a tradição das Pinturas do Parque Nacional - de tradição Nordeste - ainda não utilizo as figuras humanas com enfeites nas cabeças, mas quase sempre ela estão com objetos cerimoniais nas mãos, enquanto caçam ou dançam. Tento em meus desenhos, representar ações ligadas seja à vida de todos os dias, seja à cerimonial e estas são abundantes e constituem a especificidade da tradição Nordeste. Quatro temas principais aparecem durante os seis mil anos de existência desta tradição: dança, práticas sexuais (ainda não as coloquei nas saias), caça e manifestações rituais em torno de uma áovore.
A tradição Nordeste, por exemplo, sempre apresenta uma série de fiiguras humanas que parecem dispostas umas nos ombros das outras, formando pirâmides, que lembram uma apresentação, ou representação acrobática. Utilizo também figuras dispostas de maneira típica com posturas e gestos simples, que se repetem sistematicamente. Tem uma composição emblemática desta tradição, que representa duas figuras humanas, colocadas costa contra costa complementada a cena por grafismo puro, que ainda não encontrei como utilizar em minhas cenas, que em geral contam uma história.
Na foto, tentei retratar uma cena de casamento onde aparecem figuras sempre em movimento, os noivos, o barco da fertilidade e complementando (na parte de trás), os convidados com caças e objetos cerimioniais para o evento. A simplicidade da pintura é tão grande, que me emociona em pensar que a comunicação daqueles homens era feita de uma forma tão singela e tão forte, que hoje é objeto de estudos paleontológicos de importância para nosso patrimônio cultural, que não podem ser desconhecidos da maioria das pessoas.
O estilo é o da Serra da Capivara, o mais antigo complexo estilístico e cujos contornos são completamente fechados, desenhados por traços contínuos, sendo as figuras pintadas inteiramente com tinta lisa. As representações humanas são pequenas, geralmente menores que as figuras animais. No complexo da Serra, as figuras são vermelhas, mas eu as pinto de preto.
Existem outros estilos que ainda tenho que explorar, como o Serra Branca, que apresenta uma forma muito particular de corpo, decorado por linhas verticais ou por traçados geométricos cuidadosamente executados. Os animais são desenhados por uma linha de contorno aberta e alguns têm o corpo preenchido por tinta liso, mas em geral também têm linhas verticais como as figuras humanas. Vou dar uma estudada nesta tradição de Serra Branca e utilizar também nos meus pintares.
Gosto de Pintura Rupestre, acho que sou uma mulher de tradição das cavernas. Gosto do sistema de comunicação, gosto das mensagens, cujos significados só podem ser compreendidos no contexto social no qual foram formulados. Trata-se de uma verdadeira linguagem na qual o suporte material é composto por elementos icônicos, cuja significação perdeu-se definitivamente no tempo por não reconhecermos o código social dos grupos que o fizeram.
Gosto de reinterpretar a Pintura Rupestre, mesmo sabendo que é impossível qualquer interpretação de significados, pois se assim o fizesse, estaria incorrendo em conjecturas. Quando começo a pintar, e surgem figuras enormemente magras, com braços e pés muito compridos ou figuras gorduchas, redondas, com braços levantados, com suas armas, quase sempre à procura de caça de animais que são maiores do que eles, fico a imaginar todo o caminho evolutivo de nosso povo. São milhões anos que nos separam daqueles que, de alguma forma, escreveram a história de resistência da nossa ancestralidade.
Maristela Farias
sinto-me: Curiosa
música: Nenhuma
publicado por maristelafarias às 04:23
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